A chuva dá, a chuva tira. No Grande Prêmio da China, disputado nesta madrugada de sábado para domingo no gradioso circuito de Xangai, Lewis Hamilton esteve com a vitória e o título nas mãos. Um erro inacreditável, porém, causou o abandono do inglês - o primeiro em sua curta carreira na Fórmula 1 - e voltou a abrir o campeonato, que será decidido entre três pilotos no G.P. do Brasil, em Interlagos.
Kimi Raikkonen ganhou pela quinta vez na temporada, tornando-se o maior vencedor do ano e retornando à briga pelo título. Fernando Alonso foi o segundo e agora está a apenas quatro pontos de Hamilton na tabela de classificação. A seguir, Felipe Massa completou o
podium, com o impressionante Sebastian Vettel terminando logo atrás, num sensacional quarto. Rubens Barrichello fez prova apagada e não passou de 15º.
O tufão Krosa, que deve chegar à cidade de Xangai na noite deste domingo, não fechou o tempo como o esperado. Ao contrário da tempestade que se pronunciava, o G.P. da China teve apenas uma fina garoa que apareceu pouco antes da saída e permaneceu quase que durante toda a primeira metade da corrida. A pista ficou úmida - não exatamente molhada - de modo que os pilotos largaram com pneus intermediários.
Antes da prova, Lewis Hamilton chegou a escapar quando se dirigia ao
grid, na volta de instalação
. Ele rodou na curva inicial do circuito e deu um susto na McLaren. Sem dramas, porém, o inglês retornou à pista e alinhou o carro na posição de honra, a
pole position. Na largada, de forma até tranqüila, Hamilton saiu bem e segurou a liderança.
Os quatro primeiros, aliás, mantiveram suas colocações, embora Fernando Alonso tivesse chegado a ultrapassar Felipe Massa antes de tomar o troco do brasileiro. Ao fim da primeira volta, a classificação era Hamilton-Raikkonen-Massa-Alonso, situação que não mudou até a rodada inicial de paradas.
Se entre os líderes não havia luta por posições, a batalha era intensa no pelotão intermediário. Logo na segunda volta, Rubens Barrichello e Anthony Davidson se encontraram. Ambos saíram da pista e perderam muito tempo, estragando suas corridas. Outro que acabou prejudicado já no início foi Ralf Schumacher, que rodou na largada e caiu para a rabeira do pelotão.
A Renault de Heikki Kovalainen simplesmente não rendia e ele foi ficando para trás, formando um trenzinho atrás de si. Sebastian Vettel foi o primeiro a superar o finlandês, passando para a nona posição. Mais tarde, Kovalainen ainda perderia posições para Jarno Trulli, Jenson Button e até Ralf Schumacher, que fazia bela corrida de recuperação.
Quando a primeira rodada de
pit stops começou, Lewis Hamilton parecia absoluto. Com uma distância superior a cinco segundos para Kimi Raikkonen, o inglês fez sua parada e manteve a liderança depois que todos fizeram suas visitas ao box. A pista ameaçava secar, mas pequenas pancadas de chuva impediam que os pilotos trocassem para pneus de seco.
Numa dessas vezes em que a garoa apertou, Adrian Sutil perdeu o controle de sua Spyker dentro do pit lane e bateu forte, destruindo seu carro. Quase ao mesmo tempo, Ralf Schumacher rodou ao se tocar com Vitantonio Liuzzi, que havia acabado de fazer sua parada. O alemão da Toyota voltou à corrida, mas abandonaria logo depois após sair da pista pela terceira vez no dia.
Na volta 23, Mark Webber foi o primeiro a arriscar pneus de pista seca. Não demorou muito e ficou claro que a opção do australiano era acertada. Alexander Wurz, por exemplo, chegou a cravar a volta mais rápida da corrida assim que calçou compostos macios. Dos líderes, quem mais se aproveitou foi Robert Kubica, que retardou sua parada, fez a troca para secos e colocou combustível para ir até o fim.
Foi aí que a história do campeonato começou a mudar. Primeiro, Fernando Alonso alcançou Felipe Massa e ultrapassou o brasileiro, que tinha enormes dificuldades com pneus intermediários gastos. O bi-campeão passou para terceiro, mas precisaria tirar uma diferença muito grande para chegar nos dois líderes.
Lá na frente, Kimi Raikkonen foi à caça de Lewis Hamilton. O inglês também sofria horrores com sua McLaren, praticamente inguiável depois que os pneus acabaram. Na 28ª volta, Raikkonen tomou a liderança de Hamilton, que fez de tudo para segurar a ponta. O esforço em manter a liderança, aliás, foi fatal para o piloto da McLaren.
Pouco depois, o pneu traseiro esquerdo de Hamilton dechapou. No momento em que ia sendo ultrapassado por Alonso, o inglês rumou para o box. Então, incrivelmente, o novato-sensação errou o cálculo, entrou forte demais e não conseguiu fazer a curva para entrar no pit lane. Resultado: Hamilton foi para a brita e de lá não saiu, abandonando uma corrida pela primeira vez no ano e em sua carreira.
É claro que a McLaren do inglês estava em situação complicada. Mesmo assim, Hamilton errou duplamente: ao defender-se, sem necessidade, de forma muito agressiva dos ataques de Kimi Raikkonen, gastando os pneus excessivamente, e ao hesitar em fazer a troca assim que percebeu que os compostos não rendiam mais bem.
Com o abandono do inglês, Robert Kubica foi promovido à ponta. O polonês não precisaria mais parar e tinha, pela primeira vez, uma chance real de levar a BMW à vitória. Infelizmente, Kubica não teve muito tempo para curtir seu momento de glória. Um problema mecânico - provavelmente de câmbio - encerrou de forma precoce a corrida do polonês, quando ele liderava com quatro segundos de vantagem para Raikkonen.
Assim, o finlandês da Ferrari voltou ao primeiro lugar, de onde não mais sairia. Fernando Alonso ainda tentou um ataque nas quinze voltas finais, sem muito sucesso. O espanhol fechou em segundo, com Felipe Massa em terceiro. Sebastian Vettel, em exibição de gala, foi o "melhor do resto" ao completar em quarto, com uma tática inteligente e uma pilotagem perfeita saindo do 17º lugar do
grid.Outro que merece elogios é Jenson Button, que fechou em quinto e conseguiu o melhor resultado do ano com a Honda. Vitantonio Liuzzi - marcando seus primeiros pontos do ano - Nick Heidfeld e David Coulthard completaram a zona de pontuação. Na última volta, Felipe Massa estabeleceu a melhor volta da corrida, pouco consolo para quem é o único do "G4" a chegar em Interlagos sem chances de título.
Com os resultados do G.P. da China, a situação do campeonato lembra bastante a de 1986, derradeira vez em que três pilotos alcançaram a finalíssima do campeonato ainda com chances de levar o troféu de campeão. Assim como naquela oportunidade, o líder e principal favorito é um inglês: antes era Nigel Mansell, agora é Lewis Hamilton.
As coincidências não páram por aí: Fernando Alonso é o bi-campeão ofuscado pelo companheiro de equipe novato, papel cumprido em 1986 por Nelson Piquet. Por fim, Kimi Raikkonen é o "intruso", assim como era Alain Prost há vinte e um anos. Daquela vez, o título acabou com o francês. Será que vai dar Raikkonen?
Hamilton soma 107 pontos, contra 103 de Alonso e 100 de Raikkonen. Traduzindo: o inglês leva o troféu se terminar em segundo. Para ser campeão, Alonso precisa vencer e torcer para que seu companheiro na McLaren seja terceiro ou pior. As chances de Raikkonen são ainda mais difíceis: o finlandês tem de ganhar em Interlagos e contar com, no máximo, um terceiro de Alonso e um sexto de Hamilton para levar o título.
A chuva, que havia colocado o campeonato nas mãos do inglês depois do G.P. do Japão, voltou a abrir a disputa pelo troféu de campeão após a corrida de Xangai. Não fossem os problemas com seus pneus intermediários e Hamilton, provavelmente, já estaria comemorando o título. Agora, porém, o suspense persiste até o G.P. Brasil, em Interlagos, no dia 22 de outubro. Com certeza, vai ser uma decisão espetacular.
Logo abaixo, a classificação do Grande Prêmio da China
1. Kimi Raikkonen/Finlândia/Ferrari, 56 voltas em 1h37:58.395s
2. Fernando Alonso/Espanha/McLaren, a 9.806s
3. Felipe Massa/Brasil/Ferrari, a 12.891s
4. Sebastian Vettel/Alemanha/Toro Rosso, a 53.509s
5. Jenson Button/Inglaterra/Honda, a 1:08.666s
6. Vitantonio Liuzzi/Itália/Toro Rosso, a 1:13.673s
7. Nick Heidfeld/Alemanha/BMW, a 1:14.224s
8. David Coulthard/Escócia/Red Bull, a 1:20.750s
9. Heikki Kovalainen/Finlândia/Renault, a 1:21.186s
10. Mark Webber/Austrália/Red Bull, a 1:24.685s
11. Giancarlo Fisichella/Itália/Renault, a 1:26.683s
12. Alex Wurz/Áustria/Williams, a 1 volta
13. Jarno Trulli/Itália/Toyota, a 1 volta
14. Takuma Sato/Japão/Super Aguri, a 1 volta
15. Rubens Barrichello/Brasil/Honda, a 1 volta
16. Nico Rosberg/Alemanha/Williams, a 2 voltas
17. Sakon Yamamoto/Japão/Spyker, a 3 voltas
Não terminaram:
Robert Kubica/Polônia/BMW, Problema mecânico na volta 33
Lewis Hamilton/Inglaterra/McLaren, Saída de pista na volta 30
Ralf Schumacher/Alemanha/Toyota, Rodada na volta 25
Adrian Sutil/Alemanha/Spyker, Acidente na volta 24
Anthony Davidson/Inglaterra/Super Aguri, Problema Mecânico na volta 11
A seguir, a tabela de pontos dos campeonatos de pilotos e construtores:
Mundial de Pilotos: 1. HAMILTON, 107 pts; 2. Alonso, 103 pts; 3. Raikkonen, 100 pts; 4. Massa, 86 pts; 5. Heidfeld, 58 pts; 6. Kubica, 35 pts; 7. Kovalainen, 30 pts; 8. Fisichella, 21 pts; 9. Rosberg, 15 pts; 10. Coulthard, 14 pts; 11. Wurz, 13 pts; 12. Webber, 10 pts; 13. Trulli, 7 pts; 14. Vettel e Button, 6 pts; 16. Schumacher, 5 pts; 17. Sato, 4 pts; 18. Liuzzi, 3 pts; 19.Sutil, 1 pt; 20. Barrichello, Speed, Davidson, Albers, Winkelhock e Yamamoto, 0 pts.
Mundial de Construtores: 1. FERRARI, 186 pts; 2. BMW, 94 pts; 3. Renault, 51 pts; 4. Williams, 28 pts; 5. Red Bull, 24 pts; 6. Toyota, 12 pts; 7. Toro Rosso, 8 pts; 8. Honda, 6 pts; 9. Super Aguri, 4 pts; 10. Spyker, 1 pt; 11. McLaren*, 0 pts. *= A McLaren perdeu todos os pontos no Mundial de Construtores pelo seu envolvimento num caso de espionagem industrial.
Ao longo do dia, o Blog volta com a seção Análise do Grande Prêmio, falando de tudo o que aconteceu em Xangai, além dos comentários sobre as corridas de Fórmula Truck, Nascar, WRC e WTCC. Até mais!